“Ramo” e seus ramos de pinhão-roxo

Publicado em 14/08/2020 às 10:46


Seu Ramos e seu pinhão-roxo (Foto: Lucas Peregrino/Inventário Cultural)


Agricultor, rezador e raizeiro, Seu “Ramo” é um exemplo de uma Pessoa de Referência. Um Mestre do Saber, detentor de conhecimentos espirituais e materiais, além disso pessoa de moral e simpatia reconhecida por todos do território, do litoral ao Gurugi e para além de Pituaçú. 

Em um dos dias que encontramos com ele, estava concluindo o trabalho do roçado -  com a enxada na mão plantava alguns feijões com a ajuda da esposa. Parou o seu ofício de agricultor, nos pediu licença para tomar um banho e logo depois chegou para rezar uma criança que estava nos braços do pai. Pediu para ele pegar uma ramo de pinhão roxo e exerceu seu outro ofício: rezador. Confirmou que a criança estava com “olhado”. Após rezar a criança, nos sentamos no terreiro na frente de sua casa, ao lado do seu maior pé de pinhão-roxo (contamos seis pés em volta de sua casa) com a sua simpatia para responder nossas perguntas. 


As rezas


As rezas são alternativas de curas, facilmente encontradas em Zonas Rurais, onde o acesso aos hospitais e práticas convencionais de saúde são limitados. Deste modo, é bastante comum que seus moradores busquem processos de cuidado e cura mediante as rezas e benzeções. Essa sabedoria popular está diretamente relacionada à influência cultural afro-indígena no território, detentores desses conhecimentos, sobre rezas e plantas. 


O dom da cura e o saber das rezas é bastante respeitado, nessa região, e tem um importante significado social, pois este conhecimento popular tradicional, traz um grande benefício para a comunidade, salvando muitas pessoas de suas enfermidades, retirando-lhes a dor e o sofrimento. O lugar do rezador é análogo ao papel dos pajés das tribos indígenas. Inclusive, é um papel muito ocupado por mulheres, as rezadoras.


Transmissão do saber


Morador do Quilombo Gurugi, Severino Ramos Firmino da Silva, mais conhecido como Seu “Ramo”, aos 7 anos de idade disse para a sua avó que queria aprender a rezar. Ela lhe transmitiu alguns conhecimentos sobre as plantas e ervas, mas o que lhe tornou um rezador, segundo ele, foi seu dom, concedido por deus. Sua avó também lhe ensinou a fazer remédios, tais como lambedor e garrafadas. E informou que qualquer um pode aprender, mas para a força da cura permanecer, é necessário que seja  transmitida de uma mulher para um homem (ou o inverso), nunca para o mesmo sexo. 


Seu Ramos nos conta que primeiro ele examina a pessoa para saber qual tipo de enfermidade está lhe incomodando. Ele nos diz que consegue  identificar qual a reza será eficaz na cura da  doença, a partir dos sintomas elencados pelo enfermo e por identificar alguns sinais no doente. Seu Ramos nos conta, como exemplo, que  ele identifica quando a criança está com “quebranto ou mal-olhado” , a partir do olhar. Segundo ele, a criança fica com os “zóio morto”, “mofino”, com certo ar de desânimo. Após essa identificação, seu Ramos começa a Rezar e a partir de sua intuição, observa: se o olhar da criança mudar quando fizer a oração da “Ave Maria”, o “mau-olhado” vem de uma mulher, caso a oração seja um “Pai nosso”, o “mau-olhado” vem de um homem.


Ressaltamos que Seu Ramos não cobra nada pelas rezas, nem faz propaganda de seu ofício. O reconhecimento de seu lugar é feito pela própria comunidade e por pessoas de outras localidades.

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